terça-feira, 22 de abril de 2014

Três dias para os 40 anos do 25 de Abril !

Três dias para os 40 anos do 25 de Abril ! Tomo consciência de que há mais quatro décadas em cima dos 24 anos que tinha, naquele dia cinzento e meio chuvoso, quando me decidi a " arriscar o pêlo " por aquilo em que acreditava e militava havia anos.

Não gosto de falar de mim e também não cultivo o protagonismo heroíco que, nesta data , vai sendo hábito atribuir a algumas personalidades que tiveram um papel mais evidente nos acontecimentos. Evidentemente que não esqueço Salgueiro Maia , Otelo Saraiva de Carvalho e outros,  que nas operações militares assumiram responsabilidades importantes, mas não posso esquecer os anónimos que, nos carros de combate, no cerco ao Carmo, no assalto à Televisão e ao Rádio Clube Português, na tomada das instalações da Pide, e em tantos outros teatros operacionais , estiveram lá, asrricaram a liberdade e a vida, tornando possível o êxito do golpe militar.

Ao povo que saiu à rua, quando ainda nada estava decidido, que acompanhou e incentivou os militares em inúmeros locais e ocasiões, também a esses reconheço a importância que se atribui aos protagonistas militares. 
O 25 de Abril e o subsequente processo revolucionário, foi uma obra colectiva, de capitães, sargentos e soldados, e de milhares de cidadãos anónimos, que  tomaram partido e  agiram para transformarem a  realidade política, económica e social existente, numa outra substancialmente diferente. O êxito deve-se muito mais à acção colectiva desencadeada, do que a heroísmo individuais, que certa e esporádicamente também existiram.

Vem esta conversa a propósito do marasmo e alheamento em que a sociedade portuguesa está, num tempo em que a extrema direita governante desencadeou um plano de aniquilamento e extermínio do que se construi após Abril de 74. Refiro-me concretamente ao desmantelamento do Estado Social e à implementação de um modelo económico de mão de obra barata e de elevadas taxas de desemprego para controle do preço baixo do trabalho. À minimalização do Estado e das suas funções e prestações sociais, corresponde uma devolução ao sector privado de vastas áreas da vida económica nacional, antes de carácter social e agora de carácter negocial, onde o objectivo fundamental é o lucro. Os cortes orçamentais, principalmente, nos salários e nas pensões do sector público, na saúde, na educação, e nas prestações sociais, visam a redução do deficit do Estado, objectivo que parece justificado por si mesmo, se não tivermos em consideração a natureza da população portuguesa no que se refere à pobreza e aos escalões etários em que se divide. De facto, não se pode aceitar esta política, quando somos um país de velhos a necessitar cada vez mais de  assistência na saúde , enquanto que temos cerca de 2 milhões de pessoas no limiar da pobreza e cerca de 1 milhão de desempregados, carentes da ajuda do Estado.
Eis um breve e incompleto quadro do que já somos, mas que ainda não chega, já que parece que agora  chegou a vez dos trabalhadores do sector privado, pagos acima do que deviam na opinião do FMI.

Tudo tem sido possível, mesmo o inimaginável há pouco tempo atrás, e mais será, dado que a sociedade portuguesa não tem mostrado capacidade de reacção, de resistir activamente à avalanche de atentados aos seus direitos e nível de vida. Continuando assim, quando o plano estiver concluído, teremos o país reduzido a uma plataforma de investimento do grande capital internacional, a beneficiar de uma mão de obra barata e dócil e com um Estado pouco intrusivo na área privada, depois de alienar o mais possível as suas áreas de intervenção económica, demitindo-se das responsabilidades que são a razão da sua existência, para favorecer desavergonhadamente negócios privados lucrativos.

O que quero dizer a quem me lê, é que há outras maneiras de construirmos o presente e o futuro, e que a questão central que se nos coloca neste momento, é a da resistência aos autores e à política da destruição do nosso modo de vida.

Mais uma vez agindo colectivamente sobre a realidade para a transformar!

Jotacmarques





.


domingo, 6 de outubro de 2013

Hannah Arendt em filme

O  filme  trata da visão política de Hannah Arendt sobre Eichmann, durante o seu julgamento e posterior execução em Israel no principio da década de sessenta. Dois anos antes, Eichmann tinha sido raptado pela Mossad na Argentina, para onde fugira e vivera sob falsa identidade desde o fim da 2ª guerra. Eichmann pertenceu às SS com o posto de tenente-coronel e chefiou o departamento encarregado dos transportes de deportação dos judeus para os campos de extermínio. Obsessivamente meticuloso e trabalhador,  organiza o transporte dos judeus com um alto nível de eficácia, de trágicas e terríveis consequências. Foi uma peça fundamental na chamada "solução  final judaica", engendrada por Heydrich, o seu chefe e mentor.

Arendt era judia alemã. Presa pela Gestapo em 1933, consegue fugir para Paris  e mais tarde para os Estados Unidos da América, onde vive  até 1975, data da sua morte. Filósofa e escritora, desenvolve o conceito da" banalidade do mal" no seu livro "Eichmann em Jerusalém", escrito a partir das crónicas jornalísticas feitas durante o julgamento. O convívio com o horror, com o sofrimento ,com a tortura, enfim, com todas as formas de infligir o mal, acaba por banalizar essas acções , tornando-as aceitáveis e vulgares, passíveis de serem assimiladas na "normalidade" quotidiana dos seus autores. Sendo assim, qualquer pessoa  pode protagonizar a maldade, podendo os actos mais hediondos e destrutivos da história da humanidade, como é o caso do Holocausto, ter por autores pessoas que não se destacam socialmente dos seus semelhantes. Hannah reconheceu a mediania na pessoa de Eichmann, um burocrata obsessivo, " alguém terrível e horrívelmente normal", um cumpridor zeloso das ordens que recebia, pouco capaz de discernir entre o bem e o mal. Eichmann não era um demónio nem um poço de maldade, era apenas um homem comum,  concluiu.

O filme acompanha o desenvolvimento histórico do julgamento, das teorias de Hannah Arendt, do conflito com os leaders da comunidade judaica, que não aceitam a tese da mediocridade de Eichmann e que o consideram um monstro demoníaco e maléfico. A filósofa sofreu críticas muito severas e viu afastarem-se amigos íntimos devido às teorias que defendia. A  relação afectiva e intelectual com o filósofo e mestre Martin Heidegger, seu professor e amante, cuja influência foi determinante no pensamento de Hannah, também se analisa no filme. Heidegger,  um dos mais importantes pensadores alemães do sec.XX, inscreveu-se no partido nacional-socialista  no inicio dos anos 30.  Mais tarde, Hannah Arendt vai contribuir activamente para a  reabilitação do filósofo , o que mais uma vez lhe traz conflitos com a poderosa comunidade judaica americana.

As teses da "banalidade do mal" concluem pela necessidade permanente da defesa da liberdade e da democracia, já que  "os assassinos estão entre nós" como disse Simon Wiesenthal, o grande "caçador" de nazis, que descobriu Eichmann na Argentina.

O pensamento de Arendt a este respeito é extremamente lúcido e importante, e admiro a sua coragem e honestidade moral e intelectual na defesa das suas crenças, no entanto, julgo que não terá compreendido ou valorizado, o contexto e a importância histórica do julgamento de Eichmann.  Israel pretendia levar a cabo uma grande acção de "exorcismo" das questões do Holocausto, uma compensação, na medida do possível,  aos sobreviventes dos campos de concentração e aos milhões de mortos às mãos dos nazis. A captura, e o julgamento no recente Estado de Israel, de um  importante criminoso de guerra, com um papel tão decisivo no extermínio dos judeus, constituía uma oportunidade única de afirmação de um povo  massacrado ao limite, mas ainda assim capaz de sobreviver enquanto nação e de ressurgir num  país independente e justo

A desvalorização da ideia do  "monstro demoníaco nazi" encarnada em Adolf Eichmann, e a acusação de que  decisões colaboracionistas de alguns dirigentes da comunidade judaica durante o Holocausto tinham contribuído para agravar o horror , não parecem oportunas naquele momento particular. Por outro lado, Arendt, incentiva à escalada da polémica e à debandada de ex-amigos e correlegionários ,com a sua atitude de arrogância pessoal e intelectual,  de não ceder nas suas teses, apesar do contexto político e social.
Concordando absolutamente com as  ideias sobre a "banalidade do mal", de saber justos  os reparos ás atitudes de colaboração de dirigentes judeus com os nazis, e de admirar a sua coragem, não me parece que Hannah tenha sabido agir estratégicamente na defesa de "um bem maior", que era ,sem dúvida, naquele momento, colaborar com os dirigentes do seu povo na acusação e na condenação exemplar  de Adolf Eichmann

jcmarques

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Esboços I

O despertar do telemóvel tocou um som feito de técnicas virtuais. Sete horas da manhã, o  fim de uma noite mal dormida , plena de copos e fumo em companhia de amigos. Olhou-se ao espelho, decidiu fazer a barba de 5 ou 6 dias, mudar de aspecto, uma coisa mais convencional . No duche desenhou bichos no vapor condensado no vidro da cabine, desde miúdo que o fazia, sempre gostou de animais, talvez por isso tenha ido para veterinária. O resultado tinha sido a licenciatura e a companhia da Marléne, uma cadela " bull terrier" que o seguia para toda a parte.Vestiu-se confortávelmente, que o dia ia ser longo e díficil. A mala já a tinha arrumado no dia anterior, umas quantas peças de roupa, poucos objectos de uso pessoal e o inseparável portátil.

Os pais já estavam no pequeno almoço, na rotina que sempre conhecera desde que tomara consciência das coisas da vida. Mãe enfermeira e pai bancário, a infância e a adolescência decorrera mansa e materialmente mais ou menos confortável. Tinha duas irmãs mais novas, pouco mais, os pais tinham planeado a descêndencia sem grande intervalo. Estavam as duas na faculdade, economia e comunicação, na privada, não tinham conseguido, como ele, lugar na pública. Um esforço financeiro considerável a suportar, acrescido por ele ainda viver lá em casa. Contenção e escolha de prioridades nos gastos eram uma constante.

Já tinha duas experiências laborais pós mestrado, um estágio sem remuneração numa clínica e um
" part-time" num "call center" a convencer desconhecidos, a quem não poucas vezes  trocava o nome na pressa e impreparação, da excelência de um qualquer tratamento ou produto inovodor. Oitenta horas de trabalho mensal, vinte por semana, a ganhar 200 euros, menos de 3 euros por hora. Na pouca formação recebidade tinham-lhe dito que a insistência era a chave do convencimento, a raiar a agressividade se necessário, entrar pelo telefone na casa do putativo cliente, sem cerimónias, com perguntas invasivas e em catadupa. Cansou-se da má criação, foi despedido ao fim de 2 meses porque não era suficientemente eficaz e não alcançava os objectivos.

Enviou dezenas de currículos, respondeu a anúncios, numa procura aleatória e vã. Nada, sem resultados!

Abraçou a mãe e as irmãs, agarrou na mala e saiu. Na rua o pai esperava no carro. A viagem foi curta, um desfilar de locais e bulícios familiares.

Abraçou o pai. 

Quando se sentou no avião, sabia que não tivera alternativa, abateu-se numa tristeza melancólica.

O avião descolou rumo a uma ex-colónia... onde um lugar de veterinário o esperava...

jotacmarques

terça-feira, 23 de abril de 2013

O tremendo Medina Carreira

No programa "Prós e contras" da última 2ª feira dia 22 na RTP 1, subordinado ao tema " saídas para a crise em Portugal", um dos convidados foi Medina Carreira , que tem uma rubrica semanal na TVI onde em colaboração com Judite de Sousa , convidam personalidades e  analisam a vida económica e política do país. Medina Carreira, que já foi Ministro das Finanças como independente  num governo do PS e é um especialista em finanças públicas, tem o mérito de ter avisado desde há anos para a catástrofe que poderia desencadear-se devido ao crescimento acelerado da dívida soberana. Infelizmente teve razão.

Não está em causa a justeza dos diagnósticos analíticos de Medina Carreira, que se  caracterizam pela simplicidade e pela acessibilidade, e que são, via de regra, muito bem fundamentados na estatística e na ponderação dinâmica dos mais importantes indicadores económicos, com conclusões lógicas, rigorosas e imparciais..

O  que é chocante é o estilo retórico do homem e, já agora, o contexto intelectual ultrapassado com que olha a sociedade onde se insere. O tremendismo e o catastrofismo são a tónica, para Medina Carreira está tudo mal, ninguém é competente, só querem é "tachos" e votos para  ter poder e arranjar negociatas e  lugares para os familiares e amigos. Quanto a soluções para esta desgraça, acha que não há hipótese, não há saídas, o Estado está todo contaminado, os políticos é só conversa de chacha, a malta nova não tem a menor ideia das dificuldades, o país é o que é, e ele já não tem idade para se iludir e acreditar nesta cambada, velhos e novos, de tretas e incapazes. A propósito da remodelação que se pretende fazer nos vários colégios militares, ele que foi educado nos Pupilos do Exército, com rigor e disciplina, acha que o que leva à remodelação é a "paisanagem", de paisanos, isto é, segundo sentenciou, a malta civil tem má vontade e não gosta dos gajos que estudam nos colégios militares, e assim sendo há que acabar com este tipo de escolas. Assim, sem mais!

Quanto às questões da dívida do Estado, Medina Carreira, acha que  qualquer dona de casa era capaz de resolver o assunto, tal é a simplicidade do mesmo. Não havendo dinheiro não se pode gastar, elementar caro Watson! Simples e eficaz, até uma dona de casa, gente básica e pouco esperta, consegue resolver, tal é a simplicidade!

Com este discurso sem esperança Medina Carreira é perigoso e nefasto! Lá em casa, quem o vê, os mais velhos, aterrorizados com situação do país, perplexos com as más notícias despejadas aos magotes diáriamente pelas televisões, acenam que sim com a cabeça, venerando o senhor doutor tão sapiente e de provecta idade, e têm saudades do passado. Os mais novos perante a tremendice e o catastrofismo sem esperança debitados contínuamente, olham como única solução pirarem-se do país.

Talvez Medina Carreira não tenha consciência disto, não se ouça e enxergue neste registo, mas devia ter e moderar-se, e se não o consegue, o melhor é estar calado...até porque, se já não tem idade para acreditar nas pessoas enquanto protagonistas da mudança, certamente que tem idade para ter juízo!

jotacmarques

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Jornalismo e democracia

Biblioteca de Oeiras 5ª feira à noite, Diana Andringa falou de jornalismo e democracia, da correlação entre a política e os orgãos de comunicação, dos jornalistas e da verdade, da necessidade ou não de existirem jornalistas, da internet e da sua capacidade de gerar o "cidadão jornalista", e de muitas outras questões relacionadas com a comunicação social.

A referência à verdade e à objectividade na construção da notícia e do artigo de opinião foi constante, verdade que não pode dissociar-se dos olhos e da mente do protagonista-jornalista, mas que  deve e tem que corresponder o mais possível ao que efectivamente se passou ou é, independentemente das emoções e dos juízos de valor do relator.

Das muitas causas que determinam a corrupção frequente da verdade, Diana Andringa destacou a pouca ou a ausência de reflexão sobre os factos , o que na sua opinião leva à notícia precipitada, à superficialidade e à deturpação inconsciente ou não do assunto.

É cada vez mais evidente o esvaziamento das notícias "versus" a quantidade processada e a ditadura das audiências e/ou a urgência de as dar a conhecer primeiro e sobre o momento. Em larga medida, a confirmação da autenticidade e da credibilidade das informações é duvidosa, para já não falar da sua reflexão crítica e objectiva.

Se de alguma forma assistimos ao sacríficio da qualidade da informação a favor da quantidade , o mesmo será dizer que o cidadão comum tem hoje mais informação, mas de pior qualidade.
Haverá quem defenda que é melhor para democacia que o cidadão saiba mais ainda que saiba mal, no entanto, a avaliar pela degradação das sociedades democráticas contemporâneas, a sofrerem significativos recuos civilizacionais, não tem sido a enorme quantidade informativa a impedir e a evitar o que está acontecer.

Em Portugal, a televisão, salvo poucas excepções, dedica-se empenhadamente a estupidificar as pessoas, através da proliferação de telenovelas e de reality-shows a ocuparem horários nobres, e a empobrecer a qualidade da informação com telejornais de hora e meia ou mais, com notícias irrelevantes que seguem ao segundo os "shares" de audiência. A ditadura das audiências conduz ao sensacionalismo barato e básico, pouco verdadeiro e objectivo, fornecido alegremente a uma população que se sabe pouco instruída e culta, contribuindo criminosamente para que as pessoas se eternizem no atoleiro da mediocridade cultural.

É claro que, e de acordo com Diana Andringa, este panorama tem que mudar, pela afirmação da qualidade...nem que se tenha que usar o interruptor da televisão para desligarmos a emissão e sabotar as cotas de audiência!
jotacmarques

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O terror

Já antes escrevi sobre o medo como arma letal de dominação, usada pelos governantes que governaram ou governam contra os seus povos. Creio que me referi a Estaline, que usou largamente a "política do terror" na colectivização dos meios de produção industriais e da terra, neste último caso contra a vontade de milhares de pequenos proprietários rurais que não queriam ser expropriados. Estaline levou a cabo através do terror purgas radicais contra os seus opositores políticos, dentro e fora do partido, e  ordenou gigantescos e mortíferos "progroms" com base no medo incutido às pessoas. Neste e noutros regimes e países (nazismo, fascismo e recentemente no Ruanda, no Sudão, na Sérvia e na Bósnia, só para referir alguns) o medo foi utilizado como arma política, para que "cliques" de poder fizessem o que entendessem, sem olharem às criminosas  consequências que viessem a abater-se sobre os seus concidadãos.

A institucionalização do "terror" como política "oficial" dos regimes em que o cidadão integra inconscientemente o "medo", isto é, não protesta no emprego contra iniquidades porque tem medo de perder o lugar, não se revolta porque tem medo de sair da sua "zona de conforto", não investe porque tem medo do dia de amanhã, corresponde a um estado de espírito permanente e sociabilizado em que o indíviduo deixa  de ser e de se exercer livremente.

Presentemente é o que está a acontecer no nosso país e de um geral na Europa. O governo português utiliza constantemente o medo para implementar as políticas ultra-liberais, os portugueses são permanentemente aterrorizados com a banca rota, a saída do euro, enfim, são coagidos a aceitar a inevitabilidade das medidas de austeridade que o governo impõe, sob pena de lhes acontecer uma catástrofe ainda pior.

O medo faz parte do nosso dia a dia, como de resto se colou à pele dos países da União Europeia, que de união já nada tem,  subsistindo apenas o "medo" como cimento agregador. O projecto europeu e os seus príncipios inspiradores estão mortos, a UE só não se desagrega oficialmente porque desconhece as consequências reais desse acto.

O cidadão comum quando julga que talvez ainda possa salvar umas pequenas migalhas do que anteriormente tinha, principalmente no que se refere ao seu nível de vida e ao "Estado Social", apostando na remodelação ou na reconversão das políticas deste governo ou na alternativa do Partido Socialista, está profundamente enganado. 

A questão não reside na alternância de governos ou de partidos, pelo menos destes partidos, reside na natureza do "sistema político, económico e social". Ou será que é indiferente que o "sistema " permita que o presidente da EDP tenha recebido 3 milhões e tal de euros como remuneração em 2012 e entretanto não se queira aumentar o salário mínimo para 500 euros?

É claro que não é indiferente! É escabroso ,é indecentemente imoral e sem ponta de ética!

Ou nos batemos por uma nova organização política, económica e social, com moral e com ética, ou só nos resta este pântano em que estivemos, estamos e continuaremos atolados!

jotacmarques






sábado, 23 de março de 2013

Anormal

O confisco sobre os depósitos bancários no Chipre coloca a velha questão da competência e da sanidade mental das pessoas que estão encarregadas, em nosso nome, de tomar decisões sobre assuntos que nos afectam a todos.

Não  interessa aqui analisar as perigosas consequências do que se pretendeu/e fazer no Chipre, interessa  perceber a coerência e a lógica da decisões, em que condições foram tomadas  e tentar   avaliar a saúde mental dos protagonistas deste episódio.

Muito se tem escrito sobre o estado de saúde mental de personagens decisivos no passado histórico dos povos, sobre Estaline e Hitler foi dito que tinham personalidades paranóicas, a propósito de Roosevelt sabemos que estava profundamente doente quando esteve em Ialta onde se decidiu a partilha  da Europa e dos seus satélites em blocos políticos de influência, Salazar isolou-se do mundo político do seu tempo num quadro de misantropia, e muitos mais exemplos existem , uns mais graves outros menos, mas que levam a crer que distúrbios de personalidade e situações clínicas patológicas interferiram negativa e decisivamente na capacidade física e mental de governantes importantes e portanto na natureza das suas decisões.

Sabendo-se que a crise da zona euro é fundamentalmente uma crise de confiança, com o sistema bancário no centro do furacão, os governos e o BCE inventaram o inimaginável para sacarem aos povos e entregarem aos bancos, numa corrida desenfreada para os salvarem da banca rôta. Diga-se de passagem, porque nunca é demais dizê-lo, que a situação dos bancos é única e exclusivamente da sua responsabilidade, com origem na especulação ganânciosa do capitalismo financeiro selvagem.

Entre as muitas medidas tomada pela autoridades financeiras da Europa, porque era absolutamente vital com a crise do euro e dos bancos fixar os depósitos de aforro, a garantia de que os Estados se responsabilizavam pelos depósitos bancários até 100.000 euros sossegou os pequenos depositantes, que continuaram a canalizar as suas poupanças para o sistema bancário. O volume de depósitos nos bancos portugueses, em dada altura até aumentou significativamente após o anúncio da medida referida. Outra medida importante foi a entrada decidida e activa do BCE no mercados obrigacionistas primário e secundário, com bons resultados na descida das taxas de juro das dívidas dos países europeus em dificuldades.

Acreditou-se a partir daí que o euro já não estava em risco, que o pior já tinha passado.

Agrava-se então o problema do Chipre, há muito tempo a balões de oxigénio , num quadro de irresponsabilidade colosssal dos dirigentes cipriotas e europeus que deixaram degradar a situação durante meses sem tomarem as atitudes resolutivas que se impunham.

Os ministros das finanças europeus em reunião fora de horas, num "brainstorming" esgotante, stressados pela eminência de uma resolução, entre saídas e entradas na sala, conversas de corredor e mijas, tomam as brilhantes decisões que se conhecem . 

O imposto sobre os depósitos bancários, mesmo para os abaixo de 100.000 euros, foi fatal para a confiança no sistema financeiro. No dia seguinte o caos nos bancos cipriotas, nas bolsas europeias e nos mercados da dívida estava instalado. Apesar do recuo feito à pressa e atabalhoadamente a instabilidade persiste.

Digam-me lá se não é de desconfiar da sanidade mental de quem se compromete com garantias que depois sabota, sem pensar na consequências e deitando a ética para o caixote?

Serão "normais" as pessoas que nos arrasam com impostos para salvarem o sistema financeiro e a moeda, e que em dado momento, em  condições deploráveis, tomam medidas precipitadas de que se arrependem no dia seguinte, e que voltam a pôr  em causa o que dizem querer salvaguardar?

Acho que não!  Estamos a ser conduzidos para o abismo por pessoas que não andam com a cabeça em condições, e que, para o seu e o nosso bem,  devem vonluntáriamente ou  obrigadas  desaparecer dos centros de decisão.

jotacmarques

 




sexta-feira, 15 de março de 2013

Incapacidades

Hoje, ao ouvir o ministro das finanças a propósito da 7ª avaliação da "troika",  assisti ao maior exercício de incapacidade de um governante como jamais assisti anteriormente desde o 25 de Abril. Gaspar já não é o patusco engraçado e exótico dos primeiros tempos, deixou de ser o cromo com quem se condescendia, Gaspar é o rosto de um governo esgotado e completamente desorientado, incapaz de resolver os problemas do país. Rodeado por secretários de estado cinzentos e deprimidos, expôs durante longos e penosos minutos o quadro catastrófico em que o país se encontra e permananecerá nos próximos anos. Usou dum "economês" gongórico para desfilar números e percentagens, "ratios" e curvas, baralhou e voltou a dar três valores do déficit de 2012, corrigiu em baixa  previsões anteriores, tem mais um ano mas não se trata de mais tempo, tudo para confusamente nos dar conta do que todos já sabíamos , a situação económica é uma castátrofe e vai piorar. 

 As soluções são mais do mesmo, agora até  2015  pelo menos, e de certeza durante muitos mais anos se fossem reeleitos. Gaspar, em nenhum momento, mesmo no período de perguntas e resposta pôs em causa o modelo e o desempenho do governo, antes pelo contrário, gabou o estrito cumprimento do acordo, mitificou o regresso aos mercados como sendo obra do governo e transferiu as causas dos insucessos para a conjuntura recessiva internacional.

No período das respostas aos jornalistas, Gaspar esquivou-se ao compromisso com as futuras medidas de austeridade, e os secretários também, ficando nós  a saber que eles não fazem a mínima ideia de nada, que vão estudar e depois dizem.

Neste miserável cenário, ninguém teve a honestidade de reconhecer que o famoso modelo de recuperação económoca e orçamental é uma aberração irrealista cujos brilhantes resultados já tínhamos visto na Grécia, ninguém foi capaz de reconhecer que não acertam  uma única previsão e uma única meta a que se tivessem proposto, e finalmente, ninguém foi capaz de assumir que, assim sendo, são um bando de incompetentes, um bando de inconscientes que deram cabo da vida a milhões de pessoas e que têm que ser corridos, já que por "motu" próprio não vão sair.

É neste contexto de incapazes, que nos confrontamos com outras  incapacidades nacionais, a saber, o presidente da república, incapaz de produzir o que quer que seja para resolver o imbróglio, a assembleia da república, dominada pela maioria  que sustenta o governo incapaz e onde proliferam as incapacidades da oposição de se constituir em alternativa, os tribunais em geral com um tribunal contitucional incapaz de produzir em tempo razoável um juízo sobre as iniquidades do orçamento para 2013,  e porque não, a nossa própria incapacidade, enquanto povo,  que deixámos que uma "nomenklatura" de alguns milhares nos tenha conduzido até aqui.

Não é descabido considerar que o quadro intitucional da democracia representativa portuguesa não está neste momento capaz de gerar uma solução séria e eficaz para os nossos problemas e que consequentemente, possam aparecer receitas perigosas, quer do tipo populista  do comediante italiano, quer do tipo das erupções de violência inconsequente já vistas na Grécia.

Umas e outras não acrescentam nada á resolução dos problemas, poluindo e agravando o cenário já existente.  Os povos têm sido, históricamente, sempre capazes de encontrar alternativa  ao que não está bem. Nós temos exemplos anteriores em  que gerámos dinâmicas colectivas e pessoais capazes de  organizar novas realidades políticas, sociais e económicas. Não muito longe, o 25 de Abril foi um desses momentos, lá mais para trás no sec.XIV, a crise de 1383-85 foi outro, e outros mais se encontrariam. Não há razão nenhuma para que não sejamos capazes de o voltar a fazer....talvez estejamos demasiado aparvalhados e desorientados com o que nos aconteceu !

jotacmarques






sexta-feira, 1 de março de 2013

Imperdoável

 Há quase quarenta anos que vou a manifestações. Não é uma actividade que me dê especial prazer. Não me entusiasmam particularmente multidões, apertos, palavras de ordem, cartazes, bandeiras, etc. 

Acontece porém, que só o povo na rua é eficaz na demonstração do apoio ou não às políticas dos governos. Os governos, geralmente , reputam-se de legítimos durante os quatros que duram as legislaturas, e sem dúvida que é assim, mas a legitimidade requerida advem do cumprimento estrito e escrupuloso dos programas eleitorais, acabando quando se pisa o risco e se quebra a regra de ouro da observância rigorosa das promessas eleitorais.

Neste caso, muito frequente nos dias de hoje, o pacto entre os eleitores e os os eleitos quebra-se e a legitimidade democrática deixa de existir. Por mais que deputados e ministros berrem que só no final do mandato é que devem de ser avaliados em novas eleições, eles e nós sabemos que se trata de uma mistificação, duma treta grosseira para se manterem no poleiro, quando o povo  protesta na rua  às centenas de milhar contra as políticas implementadas.

O nosso modo de vida está a ser completamente desmantelado, está em curso uma revolução palaciana ultraliberal, que no ambiente confortável dos gabinetes dos ministérios é programada e posta em prática diáriamente e que tem por objectivo substituir o  "Estado social" , construído nos últimos quarenta anos, por um modelo minimalista e entregar aos interesses privados sectores estratégicos da economia nacional. 

O recuo civilizacional  é evidente, cortes sociais, salariais, privatizações a favor de oligopólios poderosos, nos transportes, na saúde, nos seguros, etc, impostos insuportáveis , corrupção a cada esquina, oligarquias de poder instaladas, económicas e políticas, passaram a integrar o quotidiano do cidadão comum. A complacência do governo,  a participação activa na catátrofe e a traição ao programa eleitoral,  já lhe retiraram há muito a legitimidade democrática. Os governantes não podem sair à rua sem serem vaiados e insultados, greves e manifestações quase diárias, artigos em jornais, entrevistas, blogues, facebook e outras plataformas, dão conta do descontentamento geral e da oposição a este governo.  

De forma que, mais uma vez, amanhã, lá estarei no Marquês de Pombal às 16h, para protestar. É claro que tinha coisas mais agradáveis para fazer, o dia até deve de estar bom, e tu também és capaz de pensar assim, mas será imperdoável se cederes a tentatações e não fores ao Marquês, saibas ou não de política, memo que te interrogues se vale a pena. É que a escolha reside entre seres livre ou viveres como os chineses, e como diz o povo, o que tem que ser tem muita força.

jotacmarques



 

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O " não "

Do muito que se tem escrito sobre o perfil psicológico e social dos portugueses enquanto povo, só consigo reconhecer uma única característica que nos pode definir, a incapacidade de dizermos NÃO. De facto, basta reflectirmos sobre a prática quotidiana  para descobrir quantas vezes inventámos pequenas mentiras piedosas para  descartar um convite sem dizer "não", quantas vezes tecemos imbróglios para evitar um "não", justificando-os com o imperativo de não melindrar o outro.

Do que se trata na realidade é de evitar a confrontação, e no limite, a ruptura.O português detesta confrontos, odeia decepcionar, não gosta de romper, é naturalmente conciliador e fatalmente conservador. A paz podre povoa  as relações  e o ódio de estimação que se esconde atrás de subserviências estão por toda a parte.

Aqui chegados, convêm dizer que quando se proclama que este povo é óptimo por rejeitar a confrontação, que é um povo  pacífico e respeitador, o que se pretende é dar continuidade à apatia e  à falta de reacção, para se continuar a fazer o que se quer. Quer dizer, a insuficiência comportamental do português no que respeita à indignação e ao confronto, é creditada pela pelo Governo, que fica com o terreno livre para continuar a implementar a política da catástrofre sem grandes incómodos.

Casos como o de António Costa, que se acagaçou com  Seguro, que contemporizou para evitar o confronto, a troco de nada, ou melhor, que se deixou enganar, propositadamente, para perpetuar o principio da partidocracia, em que a ética e a moral se ajeitam de acordo com os interesses dos "lobbies" e das carreiras pessoais, ou o caso do Secretário de Estado que sabendo das aldrabices no BPN se calou durante meses, são elucidativos desta falta de coragem.

Mais genéricamente, estou convencido de que a falta de reacção da sociedade portuguesa radica na incapacidade generalizada de dizer "não". A questão é que, quando nos confrontamos, quando dizemos não ao que nos atormenta e provocamos a ruptura, o que se segue é mais claro, clarifica-se e objectiva-se melhor a realidade.

Cá por mim, acho que é mais que tempo de dizermos NÃO, sob pena de não restar nada!

jotacmarques 

 


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A normalidade da mentira

A anormalidade tende cada vez mais a ser normalizada neste país devastado, explicando melhor, comportamentos considerados éticamente incorrectos mas repetidos muitas vezes sem que daí advenham consequências de maior, por via dessa repetição impune, passam a ser socialmente aceitáveis e portanto normais.

Tomemos o exemplo recente do pedido de mais tempo para pagármos a dívida. O governo que repetidamente afirmou que nunca pediria nem mais tempo nem mais dinheiro aos credores, veio agora na reunião do eurogrupo pedir mais tempo numa viragem de 180 graus, isto é, fez exactamente o contrário do que sempre afirmou, mentindo descaradamente aos portugueses ao longo da legislatura. De resto, também as promessas eleitorais foram em grande medida desrespeitadas, acontecendo que inúmeras pessoas que votaram no PSD e no CDS se sintam enganadas. 

Estranhamente a sociedade não reage ou concede pouca atenção à mentira e ao logro sistemático praticados pelos políticos, integrando pacificamente a prática, que passou por via do consentimento acrítico a fazer parte do universo do normal. Os próprios políticos justificam a mentira, os desvios, a ocultação, a manha, a esperteza saloia, com o postulado de, como já variadíssimas vezes vi e ouvi, " faz parte da política " ou "é a política", numa atitude de menorização dos atropelos à moral e à ética.

Decorre portanto que , toda a construção  governativa e de um modo geral o edíficio político/partidário nacional, com algumas excepções evidentemente, assenta num modelo pouco ético e moral, contando com a complacência e a resignação da generalidade dos cidadãos. Estamos perante um  relativismo acrítico e imoral que ratifica a ilegalidade da mentira e do logro, e que é em grande medida gerador da corrupção impune que atravessa a sociedade portuguesa.

A origem da crise económica, social e política está, em última análise, radicada neste tipo de comportamentos, não se vendo fim à vista, antes pelo contrário, já que constituídos em  prática corrente influenciam, decisivamente pelo exemplo as gerações mais novas.

Pessoalmente sou um resistente, procuro o mais possível não ser contaminado pela doença, mas   cada vez mais tenho dificuldade em confiar e acreditar nas instituições, cada vez mais  o vazio da desconfiança me atormenta, e não gosto, não gosto mesmo nada de assistir à degradação de valores que eu julgava intocáveis e intemporais.

jotacmarques 

domingo, 30 de dezembro de 2012

O "Eixo do mal" na praça Tahrir

Há para aí um programa televisivo chamado "Eixo do mal", que passa na Sic Notícias aos sábados a dar para o tarde, onde quatro comentadores debitam regra geral baboseiras que pretendem abordar a política numa lógica de humor. O resultado é mais ou menos desastroso, mas ontem, Clara Ferreira Alves, de longe a mais esperta e assertiva do bando, falou a sério e produziu uma ideia muito interessante a propósito do derrube dos governos impopulares. Disse ela que, na Grécia e em Portugal as manifestações de rua parecem não produzir grandes resultados, já que no primeiro está tudo na mesma e cá não é melhor,  como  se a "normalização" do que é excepcional lhe banalizasse e enfraquecesse o conteúdo. Na opinião da Clara, o que se tem passado  no Egipto na praça Tahrir, onde multidões enormes de populares ocupam dias e dias a praça em protesto contra os governos, até que Mubarak se demitisse, ou, mais actualmente, contra  o presidente Morsi e a lei que lhe confere poderes ditatoriais, tem sido a fórmula de manifestar o descontentamento dos cidadãos que produziu os  resultados mais notáveis relativamente aos objectivos pretendidos.

Ferreira Alves considera que os países Europeus se deviam debruçar com mais atenção sobre estas experiências de cidadania dos povos islâmicos  e aprender com elas. O ocidente que insiste em exportar os seus modelos para todo o Mundo, a maioria das vezes forçadamente e sem resultados animadores, talvez tenha que aprender com as práticas actuais  dos anteriores colonizados, infere-se da posição de Clara F. Alves.

A ideia é interessante e muito pertinente, mas há que contextualizar. De facto, o que se tem passado no Cairo tem contado com a complacência da polícia e do exército, que fazem vista grossa às concentrações populares, ou pelo menos não se abatem ferozmente sobre as pessoas. Em Portugal , na Grécia e em Espanha as coisas não se passam assim, as cadeias de comando político-militares funcionam e ainda não se degradaram como no Egipto. Provávelmente virá a acontecer a implosão das cadeias de comando a curto ou médio prazo, se a situação se degradar muito, as exigências da repressão se acentuarem, e se tornem intoleráveis para a polícia, cujos efectivos também sofrem na pele os efeitos da crise tal qual os demais cidadãos.

Então sim, transformar as praças europeias à semelhança de Tahrir, ou prosseguir o que aconteceu em Madrid nas Portas do Sol, sem que a polícia de choque espanque gente indefesa, é muito possível e desejável.

Até lá continuemos a afirmar a nossa revolta em manifestações de rua, em grandes protesto como o de 15 de Setembro, sem partidos a creditarem e a manipularem o descontentamento.


jotacmarques



     

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O discurso do nada

Vi e ouvi a recente entrevista feita ao 1ºministro, uma soma de repetições, de frases velhas e estafadas, de teimosias de ignorante, que ignoram  o sentido criativo de governar. Da última vez para esta, não se acrescentou um parágrafo, uma frase , um simples ponto ou virgula ao discurso. O vazio tomou conta de Passos Coelho, que persiste na caminhada fatal, para ele e trágicamente  para nós. É como se  um  tremendo cataclismo se tenha abatido sobre nós e que no final  nada reste.

No mesmo ou noutro dia, o ministro da segurança social esforçava-se afincadamente em justificar a necessidade de reformar o sector. Fechei os olhos, dispus-me a ouvir atentamente, na esperança de identificar uma ideia, uma simples ideia criativa, que contribuísse para o ajustamento  que também eu acho  necessário fazer, o resultado foi desolador. Foi mais uma vez o nada.

Ministros, secretários de estado, deputados, políticos em geral, falam, refalam, trifalam, falarão até ao insuportável, mas produzem mais do mesmo, os da situação e os que se lhes opõem,  nada de novo.

O país paralisou, cristalizou nas posições do governo e da oposição, e a capacidade de  inovar e de criar  teorias, políticas, sociais e económicas para ultrapassar a crise é anémica.

Greves, manifestações, outras milhentas formas de protesto, são absolutamente necessárias, mas só por si não bastam.O aparecimento de novas fórmulas alternativas e viáveis a curto prazo, que se oponham às teorias do governo, é imprescíndivel, já e em força.

De outro modo, a continuar-se na astenia paralisante do discurso do nada do governo versus oposição, tipo os cães ladram mas a caravana passa, vamos morrer a breve trecho, como nação e como país.

jotacmarques 

 

sábado, 17 de novembro de 2012

A carga policial do dia 14 de Novembro

A carga policial sobre os manifestantes em S Bento no passado dia 14 vai alimentar durante dias jornais e televisões. Opiniões sobre a justeza ou não da carga policial,  relatos apaixonados de testemunhas oculares, consequências dos acontecimentos, farão a felicidade do exército de comentadores e de opinion makers deste país de paixões.

No entanto, nada de inédito se passou, e certamente que  situações idênticas se passarão no futuro próximo se não se aprender nada, polícia e manifestantes, com os presentes acontecimentos.

Durante cerca de duas horas a polícia foi invectivada e vítima de pedradas e de outros objectos de arremesso,  sem que tenha havido a detenção dos autores da proeza. Os arremessadores constituíam um grupo de poucas dezenas de pessoas, sitiados nas linhas da frente da multidão presente, cerca de 5 mil pessoas, e portanto fácilmente identificáveis  e passíveis de serem detidos antes que as coisas inchassem.

Estes indivíduos achavam-se quase todos mascarados e alguns ostentavam símbolos anárquicos. A polícia tinha agentes à paisana infiltrados na multidão. Dir-se-ia surrealista a situação, em que uns cometeram ilegalidades durante horas, nas barbas de outros que pura e simplesmente deixaram que acontecesse.

A carga policial acabou por desabar, e como em tantas outras vezes foi indiscriminada, quem estivesse  à mão levou pela medida grande, velhos ou novos, mulheres ou homens. Depois foi a debandada e as perseguições  habituais, e neste caso, património danificado e focos incendiários.

Do grupo dos problemas, trata-se de arruaceiros, que não fazem a mais leve ideia do que é o anarquismo e que pensam certamente que Bakunine é um dos jogadores do Celtic de Moscovo. É gente que gosta da violência pela violência , hooligans que parasitam o justo descontentamento dos povos que estão a ser vítimas das iniquidades das politicas da austeridade. Claro está que, não é de excluir um ou outro manifestante convicto e  por regra pacífico, que no auge da confusão se exalte e descontrole e que também atire a sua pedra ou parta o mobiliário urbano. 

Do lado da polícia o comportamento é o da falta de discernimento racional sobre quem deve de abater a repressão, o que de resto vem fazendo a regra. Cordões policiais e infiltrados têm que, devem de, deter imediatamente os aprendizes de feiticeiros violentos evitando a escalada dos acontecimentos. Estão lá não para bater indiscriminadamente, mas para evitar que ser chegue a esse ponto, isolando os arruaceiros.

Os manifestantes, vítimas maiores de tudo isto, devem de considerar afastar-se dos arruaceiros e da polícia sempre que as coisas comecem a dar para o torto, ou correm o risco de serem espancados sem terem culpa de nada.

No que diz respeito à hierarquia policial e governativa, o mínimo que se pode dizer é que falharam redundamente. Não é honesto que se venha louvar a actuação policial, que se pautou por falta de prevenção, e por falta de capacidade interventiva durante duas horas sem deter os energúmenos das pedradas. Não há justificação que valha a este comportamento, que acabou por resultar no habitual, carga indiscriminada sobre os manifestantes, devido ao mau desempenho das chefias da cadeia de comando.

No futuro próximo as manifestações e outras acções de protesto vão intensificar-se na proporção das iniquidades da austeridade, a agressividade será crescente, e é de prever o aumento de  actos de descontrolo. 

Ao habitual e bacoco apelo à responsabilidade, em que por via de regra ninguém assume coisa nenhuma, é urgente que se apele à inteligência. Refiro-me à capacidade intelectual de interagir o raciocínio com a realidade tangível e de adoptar as acções mais harmoniosas e correctas, falo da inteligência emocional óbviamente.

jotacmarques









terça-feira, 13 de novembro de 2012

Merkel em Portugal

Afinal a contestação à Chanceler alemã foi pífia, apenas escassas dezenas de manifestantes orlaram Belém e S. Julião da Barra. Da visita, espremida, nada. Nada das esmolas ansiosa e servilmente esperadas por alguns - novos investimentos, revisões às posições defendidas por Merkel-, apenas declarações frouxas e pouco convicentes de apoio às politicas do governo de Passos Coelho.

Merkel, rápida e decidida, às vezes desinteressada, Passos Coelho, servil e abatido, fiel à sua inspiradora, de uma subserviência pastosa e de mesuras superlativas disse o que a chanceler queria ouvir, pôs-se em bicos de pés quanto à qualidade de dilecto bom aluno, e foi absolutamente mudo quanto à defesa dos interesses do povo que o elegeu. 

Merkel também esteve com Cavaco, mas não faço a mais pequena ideia sobre o tema da conversa e duvido que o venha a saber, tendo em consideração o que tem vindo de Belém, isto é, um  ensurdecedor silêncio sepulcral.

Antes de viajar para Berlim, a chanceler alemã ainda foi fazer uma perninha  ao congresso luso-alemão no CCB. Fiquei deveras entusiasmado com a promessa de Merkel vir passar férias a Portugal quando deixar de ser chanceler.

De forma que, como dizia o outro, nada de novo na frente oriental!

Uma última nota para o empenhado aparelho de segurança durante a visita. Foi um momento alto, altíssimo, das nossas forças de segurança. A concepção do plano, sem dúvida da autoria de grandes competências, de pessoas muito conhecedoras e espertas, centrou-se no principio de um polícia para cada manifestante, e na supressão da circulação de tudo o que mexia, o que neutralizou em absoluto qualquer tentativa criminosa contra as comitivas dos dois países. Nalguns casos por deficit de manifestantes, era dia de trabalho normal, havia mais polícias do que meliantes, certamente mais um record do Guiness, tão ao agrado dos nacionais. Não esquecer também, as ruas cortadas ao transito já na véspera, e o encerramento do espaço aéreo durante a aterragem e a descolagem do avião da chanceler, não fosse algum caça inimigo ou quiçà, uma avioneta kamikaze  aparecer no horizonte.

E lá vamos andando com a cabeça entre as orelhas, como diria o Sérgio!

 
 jotacmarques
  

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Grécia massacrada

A Grécia volta à ribalta da informação com as grandes manifestações e a greve geral. Mais um pacote de austeridade ameaça este povo tão massacrado.

Em rigor, a Grécia nunca saiu das bocas do mundo. A situação na Grécia é sistemáticamente  invocada como  mau exemplo, aponta-se à Grécia o anátema do não cumprimento das medidas indispensáveis á recuperação orçamental e da divida externa. Critica-se-lhe as acções violentas durante as manifestações, alude-se à preguiça endémica do país e ao desregramento financeiro dos gregos, que andaram a gastar acima das suas possibilidades.

O  nível de vida deste povo tem baixado significativamente,com o PIB a perder pontos e  o desemprego altíssimo e crescente. A Grécia,  foi o primeiro país da UE a ser intervencionado, o primeiro onde a troika começou a ensaiar a miraculosa receita da austeridade. Portugal foi o terceiro e tem sido "um bom aluno", dizem. Os resultados da política de austeridade em ambos os países são semelhantes, quer dizer, à descida generalizada dos indicadores económicos  corresponde um recuo civilizacional grave. As regras da lógica só podem concluir que, se a um modelo igual, aplicado um bem e outro mal, corresponde resultados igualmente maus, então a origem do mal está no modelo.

Sobre a Grécia, diz-se que  não se quer ser igual, nos países em apertos é vulgar a expressão - " nós não somos iguais à  Grécia " ou " não queremos ser uma nova Grécia "- indicativa de que a Grécia é um péssimo exemplo, que a todo o custo é preciso evitar. Também se ameaça despudoradamente os gregos de serem expulsos da UE, caso não cumpram as medidas impostas pelos credores. No entanto, o país  está esmagado pela austeridade ditada pelos credores e o modelo de "recuperação " é o imposto pelos credores. A sociedade grega está em destruturação acelerada, devido ao cumprimento das medidas exigidas pelos credores, a saber, o FMI , a UE e o BCE. O ciclo vicioso criado por mais dinheiro de empréstimos e mais dinheiro de juros, a pagar em prazos impossíveis, com metas orçamentais e de redução da dívida impraticáveis, é   assassino de qualquer réstea de esperança no crescimento económico.

Na prática, são os bancos  europeus mais ricos os verdadeiros financiadores dos déficits gregos, que compraram dívida soberana grega nos mercados financeiros internacionais, antes  e depois do regaste,  contribuindo para o financiamento  da Troika,  que por sua vez garante o financiamento à Grécia durante o período de intervenção.

É claro que estes países não viram obstáculos em emprestar somas astronómicas à Grécia en quanto lhe vendiam o que exportavam,  criando com frequência falsas necessidades e induzindo a população a endividamentos  e a níveis de  consumos fora das suas possibilidades reais. Falamos da Alemanha, da Holanda e da França, entre outros, e por exemplo, dos submarinos vendidos por empresas alemãs, cujo valor foi colossal e a necessidade/aplicação muito duvidosa. No entanto convinha saber quem realmente arrastou a Grécia para a situação actual. Naturalmente há que considerar o excessivo consumo e o endividamento das famílias, mas o mais gravoso foi sem dúvida a gestão ruinosa do Estado. O Estado grego foi sucessivamente governado por um leque de  partidos corroídos pela corrupção e defensores de  poderosos interesses corporativos e financeiros. A estrutura do Estado, burocrática e pesada, mostrou-se  ineficaz na cobrança de impostos e na implementação de reformas estruturais, e a burocracia  favoreceu a  enorme corrupção. A instabilidade governativa, provocada pela falta de consenso entre os partidos políticos, manifestou-se em eleições sucessivas, que resultaram em governos de coligação fracos e pouco credíveis, sem base de apoio popular consistente. Pacotes sucessivos de austeridade, greves parciais e gerais em catadupa , desordem nas ruas,  falta de solidariedade da UE,  e a enorme falta de capacidade dos governos em gerir a crise, arrastaram o país para uma situação catastrófica. De passagem, há que referir  a colossal e permanente migração de dinheiro grego para bancos estrangeiros, na ordem  dos biliões de euros,  que se sitiaram em bancos alemães e foram excluídos do financiamento à economia da Grécia.

Neste contexto, a compreensão e a ajuda de Bruxelas impunha-se, mas contrariamente, o desmerecimento, a crítica e a ameaça permanentes, estão na ordem do dia das instituições europeias. Os países intervencionados desdobram-se em declarações para se destacarem da Grécia, como se o país tivesse peste e pertencesse a um outro universo, que não a União Europeia.

A atitude da UE em relação à Grécia é prenúncio da desagregação da Europa comunitária, não se podendo falar de união quando um dos membros do clube é permanentemente alvo de  discriminação. Os países do norte da Europa , com a Alemanha no comando, constituíram-se num grupo à parte, pretendendo que os países do sul cumpram estritamente as suas exigências, que passam por metas e metodologias incomportáveis do ponto de vista social e do crescimento económico.

As declarações críticas e isolacionistas para com a Grécia são uma enorme imoralidade e quebra de solidariedade para com um parceiro da mesma união política e financeira. Devem  acabar já e radicalmente! O Governo português deve fazê-lo sem hesitações, até porque em breve vamos ser identificado com a Grécia e alvo dos mesmos desmandos, não porque este país nos tenha contagiado  uma doença, mas sim porque  estamos a ser vitimas da mesma receita ruinosa, que acabará por nos arrastar para a mesma situação.

jotacmarques



quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Precisões de linguagem

 Governo, opinion makers, deputados, etc, todos os dias nos massacram com declarações de que é preciso cortar nas despesas do Estado para que os impostos não subam a níveis absurdos. O que à  primeira vista parece estar certo, surge duvidoso quando nos interrogamos sobre o tipo de despesa a cortar. 

O que geralmente acontece é que as despesas consideradas pelo Governo, não são de modo nenhum as que o cidadão comum quer ver diminuídas. O Governo avança com cortes na saúde, na educação, nas prestações sociais, o cidadão gostava de ver cortes na frota automóvel de luxo, nas ajudas de custo dos altos funcionários, nos almoços e jantares pagos pelo erário público, nas reformas escandalosas dos administradores  das empresas públicas, etc. Também gostava o cidadão comum que, se denunciassem os contratos feitos pelo Estado com o mundo empresarial privado em que estes saíram manifestamente beneficiados,  as obras públicas não disparassem os custos  para valores duas ou três vezes superiores ao inicialmente previsto,   as mesmas obras considerassem nos projectos o principio da estrita necessidade,  não fossem decididas para satisfação de clientelas político-partidárias, não fossem para os intervenientes do processo embolsarem ilegal e criminalmente dinheiro dos contribuintes, não tomassem dimensões megalómanas, enfim, tivessem em conta o cuidado criterioso que deve presidir à gestão do dinheiro público.

No entanto não foi nem é o que se passa, como todos sabemos, o que acontece é exactamente o contrário. Fizeram-se rotundas aos milhares, inúteis muitos milhares, estádios de futebol que não foram nem são utilizados, procedeu-se à  recuperação e construção do parque escolar à rica, com escolas próprias dos países mais ricos do planeta,  à construção de equipamentos desportivos e culturais de luxo  feitos pela autarquias e que só são utilizados uma mão cheia de vezes por ano quando o são, construíram-se  autoestradas do "lá vai um" para satisfazer caciques, gastou-se à bruta na Expo98 para agora se ter privatizado o Pavilhão Atlântico e não se saber há anos o que fazer com o Pavilhão de Portugal, etc, etc.

É a isto que o povo quer ver o fim, que se ponha um ponto final, não é aos cortes na educação e na saúde, não é que se reduza na cultura a ponto da vida vegetativa, o que o povo quer é correr de vez com as práticas e os protagonistas que enterraram o país, não é de modo nenhum a minimização de sectores públicos estruturante e nucleares ao presente e ao futuro de Portugal.

Evidentemente que, quando se reduz brutalmente nos direitos constitucionais e se faz pagar serviços anteriormente grátis ou se agravam taxas, na prática corresponde a mais impostos ou a cortes salariais, ou ainda  ao que se pretendia com a famosa novela  da TSU .

Ás  palavras correspondem conceitos que devem ser inequívocos, neste caso, quando se fala de despesa é conveniente precisar do que é que falamos, porque óbviamente que não estamos a falar da mesma coisa .

Será mais um erro de comunicação, ou será que nos querem atirar areia para os olhos???

jotacmarques

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Discurso sobre a cegueira

Que o governo é estúpido já  sabia, mas que também é cego, descobri com a questão do orçamento para 2013. Também sabia que a maior parte dos membros do governo, assessores e demais, são ignorantes, gente que só   conhece o povo e o país do que aprenderam nos meandros das jotas  e na teoria das faculdades, algumas, diga-se de passagem, de qualidade bem duvidosa. Trabalho no duro, népia, planearam carreiras partidárias, moveram-se no tráfico de influências e parasitaram as estruturas partidárias que eram trampolim para o poder. Entre eles, selaram pactos de cumplicidade, partilharam segredos e negócios, num vai e vem de créditos e débitos para as suas vidas, ou então até ao oportunismo de novas e mais compensadoras alianças. Passos Coelho e Relvas parecem siameses, apesar  da imbecilidade militante  e do  cadastro duvidoso do segundo, que se revela sériamente prejudicial para o primeiro.

O governo é duplamente cego, porque toma medidas cegas que não olham a nada e a ninguém, excepto o capital financeiro e a riqueza,  porque é incapaz de prever o que provoca com estas  acções. A classe média, a mais gravemente atingida,  está em vias de extinção. Muito em breve teremos um país de muito pobres, pobres e ricos.  Teremos um país explosivo!

Sendo sabido que, nas democracias representativas, a classe média constitui a espinha dorsal da sociedade, e que históricamente, sempre que esta classe se desagrega, aparecem soluções autoritárias ou caóticas, só se percebe a atitude do governo tendo em conta a incapacidade política de entender os contextos históricos e as suas dinâmicas. Se por um lado  é patente a incapacidade cultural para contextualizar , por outro apresentam uma fé cega num modelo que invariávelmente se engana  nas previsões económicas e financeiras, sem que assumam a mais leve responsabilidade pelos erros ou ponham em causa o modelo.

O que parece mais grave, neste caos  destrutivo do Estado social , é no entanto a absoluta inconsciência do que vão causar, nomeadamente o crescendo dos extremismos de direita e de esquerda, por via da destruição da classe média. Evidentemente que a implementação do modelo ultraliberal é o objectivo ideológico deste governo, mas a  cegueira política relativamente ao que vem associado, além de perversa é perigosa.

Em suma, cega, estúpida, inculta e incompetente, a acção deste governo está a pôr o país na miséria e está a criar as condições favoráveis ao aparecimento de messias salvadores de que já sabemos amargamente o resultado, ou de modelos que em nome do povo são supressores da liberdade. A resistência, nas suas mais variadas formas de expressão ,legalmente estabelecida pela  Constituição, é o caminho a seguir pelos cidadãos deste país, esperando que o governo caia ou se demita, antes que  que se descambe na violência generalizada e na desordem.

 jotacmarques

Ps: Saramago compreenderia certamente a apropriação do título para esta reflexão 

    


quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Agonia

Vítor Gaspar falou ao país! Brincou com os seus queridos modelos teóricos, viajou por percentagens e números, juntou muitos gráficos que nós não vimos em casa, falou de êxitos fantásticos que ninguém conhece, regozijou-se com a confiança que os mercados têm em Portugal, exultou com pagamentos adiados de que vamos pagar mais juros, e todo este aparato para dizer o que toda a gente já sabia, vamos pagar mais impostos. Desde que que o governo tomou posse tem sido sempre assim, os êxitos são de arromba, mas é preciso mais dinheiro, pagamos  mais sempre que um governante vem falar à população.

Sobre os rendimentos do trabalho, Vítor sabia bem o que fazer, reescalonamento do IRS, taxas extraordinárias mais altas, corte de subsídios, mas no respeitante ao capital, que sim, sim senhor, umas coisas, mas iam ver melhor, depois diziam mais quando se discutisse o orçamento. Incisivo para os trabalhadores, vago para o capital, o habitual.

O ministro das finanças parece que estava numa reunião de técnicos, esqueceu-se de que falava ao povo. O intrincado, a renda era tão de curvas e gráficos, a linguagem tão hermeticamente cifrada, o põe ali tira daqui foi tão complicado, que o povo deve  ter ficado na mesma, ou melhor, ficou pior, mas nem se deve ter apercebido bem. O curioso é que o povo não é burro, o que coloca a questão de quem é a culpa de pouco se ter percebido da comunicação. Seguramente que foi do ministro, que colocou no discurso tanta complicação, tantas variáveis técnicas, que das duas uma, ou não consegue adaptar a linguagem da mensagem ao receptor , um problema de comunicação, ou a complicação é propositada. Acredito  que seja a segunda, o governo precisa de criar diversões que afastem as pessoas da compreensão do verdadeiro problema.

O verdadeiro problema consiste num modelo de ajustamento financeiro e orçamental baseado na austeridade e na desvalorização do factor trabalho. Trata-se das teses neoliberais, assentes nas doutrinas ultra-reaccionárias da Escola de Chicago, cujo mentor Milton Friedman foi chamado pelo ditador Augusto Pinochet para aplicar o seu modelo económico ao Chile. O que levaram a cabo foi o desmantelamento da economia de inspiração socialista de Allende e da sua substituição pelo modelo liberal, que disponibilizou o país para os grandes grupos norte-americanos.

Entretanto, não se conhecem países que tivessem saído de crises por via do modelo de Friedman. Actualmente, os estados sociais europeus estão a ser campos experimentais para a teoria, e até agora o que temos é o que já se viu nos anos 70 no Chile, a destruição das estruturas sociais do Estado, as quedas brutais na actividade económica e nos recursos da população, as privatizações em massa de empresas estratégicas e a sua venda aos interesses económico-financeiros privados nacionais e internacionais.

O modelo neo-liberal é  completamente desprovido de sensibilidade social e intencionalmente promotor de taxas elevadas de desemprego, no pressuposto de que quanto maior a oferta da força de trabalho mais baixo  o seu valor , e vive de modelos de fé, concretamente, a crença inabalável nos mercados que tudo ajustam e regulam com justiça e benevolência. O corolário consiste em que o que é bom para os mercados é bom para as pessoas, sem tomar seriamente em consideração as enormes manipulações especuladoras a que os mercados são sujeitos a toda a hora.

Os portugueses e outros povos europeus estão debaixo do fogo dos agentes desta teoria, os resultados de ano e meio deste governo estão à vista,  se quisermos aliviar a pressão temos que nos ver livre de Passos Coelho & companhia.  A ilegitimidade do governo é patente, prometeu e não cumpriu, tem feito exactamente o contrário do que os seus  eleitores esperavam, é incompetente, as suas previsões são geralmente erradas e não alcança as metas a que se propõe, é irresponsável,  a culpa nunca lhe pertence, ele está certo e  o povo é que não se comporta conforme o esperado, vide o caso da TSU que é uma medida extraordinária, sublime, mas que os empresários ignorantes não compreendem o alcance, finalmente ,conta na sua composição com gente pouco recomendável, que todos sabemos quem são.

Com este cadastro não vejo razões para que continuem!

jotacmarques



  

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Evidências

Correm tempos conturbados, já todos sabemos, mas não estou certo de que a maioria da população portuguesa e europeia se dê conta da magnitude das más consequências que se desenham no curto e médio prazo, se não houver um alteração radical nas políticas de Bruxelas e dos estados mais poderosos da União Europeia.

A indignação despertada no países do Sul da Europa, originada pela brutal queda das condições de vida , rápidamente passará a revolta, se a Alemanha e aliados continuarem a pressionar os ajustamentos financeiros com base em draconianas medidas de austeridade e na desvalorização do trabalho. Na Grécia e em Espanha há casos evidentes de acções de revolta, com confrontos e destruição de património pertencente a entidades que simbolizam o poder financeiro que esteve na origem da actual crise.

O agravamento do sentimento de revolta, a  acontecer, como tudo parece indicar face à intransigência com a austeridade, prenuncia  acontecimentos cada vez mais duros por parte dos descontentes. Sem catastrofismo, é de esperar que as manifestações populares descambem em violência e confrontos, numa escalada pré-insurrecional .

Por outro lado, em  Espanha , mais concretamente na Catalunha, há sintomas muito fortes que põem em causa a unidade territorial e política do país vinda do  sec. XV. A acontecer o  "referendum" que o Governo Autónomo pretende fazer, e sendo muito possível que os catalães se pronunciem pela separação de Espanha, a questão alastrará imediatamente a outras autonomias. A Galiza seria a próxima,  já que do País Basco nem é preciso falar. O perigo  da Espanha acabar como país tal como actualmente conhecemos, é muito real e poderá estar na ordem do dia.

A Itália, país resultante de unificações sangrentas e formado no sec.XIX, é enquanto Estado Europeu uno, relativamente jovem, e as pulsões regionais , resultantes da História das antigas potências que actualmente compõem o país, somadas aos interesses actuais dessas regiões, também constituem terreno fértil para separatismos. É conhecida a tentação do Norte rico com sede em Milão para se destacar do resto do país bastante mais pobre.

Se quisermos ir mais longe,  também se poderia falar da Bélgica, dividida entre Valões e Flamengos, que se odeiam fraternalmente.

Estas questões do separatismo, algumas antigas e adormecidas, outras porventura mais efervescentes, estão a ser repescadas devido à situação caótica que tem origem na crise, mas muito fundamentalmente devido à receitas desastrosas do ajustamento financeiro e orçamental, que aprofundam as diferenças entre regiões ricas e pobres, e levam à quebra de solidariedade por parte das primeiras, na vã esperança de se salvarem do desastre.

A concretização de separatismos, com a proliferação de pequenos países cada um com interesses próprios, porventura inconciliáveis, levará no estado actual da Europa à desagregação da União, com um rol de consequências imprevisíveis, donde não se pode excluir a guerra.

Estas evidências, para quem se preocupa com o que se passa na actualidade, parecem não preocupar a maior parte dos governantes europeus, que continuam teimosos nos seus modelos económico-financeiros ruinosos e de consequências inquietantes.

O governo português assobia para o lado e quer fazer crer que as manifestações populares não o incomodam. Num exercício de autismo grave, continua a seguir submisso a chanceler alemã, que sem disparar um tiro vai conseguindo o que Hitler não conseguiu com  guerra, submeter a Europa.

Aos autistas procura-se o estabelecimento de relações com o real, ao governo autista idem, mas neste caso as técnicas psico-terapeuticas são outras, são as movimentações populares na rua, de protesto e  de indignação, até que não lhe seja mais suportável e se demita.

jotacmarques